quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Contos de fim de tarde - II

Quase três semanas se passaram desde a última vez que Manoella viu Vincent, e ela não pensara muito nele nos últimos dias pois a rotina a tragou de uma maneira que o tempo simplesmente pareceu ter estagnado.
Porém neste fim de tarde ela quer respirar, e tirar do peito a pressão que parece pesar nos pulmões precedendo o pranto.
A tarde foi de clima agradável, mas uma insistente neblina continua a cair e pintar o céu de cinza.
Manoella aguarda o fim do expediente de trabalho, vai até o vestiário calça um par de tênis confortável e sai a caminhar pelas ruas da cidade.
Cada passo dado para frente parece apontar-lhe uma pendência, e outra, mais uma e poucas alternativas de solução.
A neblina persiste, e ela tenta concentrar-se nas gotas de água que formam-se no seu rosto e chega a conclusão de que poderia chorar o quanto quisesse que ninguém perceberia, aliás já deveriam achar estranho o foto de uma pessoa andar sem se proteger da chuva num dia como aquele.
À medida que as lágrimas corriam e deixavam no seu rosto seus traços salgados, a neblina branda afagava removendo aquele sabor de tristeza.
Mas porque ela chorava, as lágrimas eram o respirar de uma mulher que sempre tentou fazer as escolhas certas, que amava o marido que protegia o filho e não conseguiu lutar contra uma avassaladora paixão, paixão esta que por vezes era tão afável como aquela neblina por outras tão sufocante como o calor e o sabor daquelas lágrimas.
Lembrou-se de um verso de Shakespeare:
"Consiste a monstruosidade do amor...
Em ser infinita a vontade,
e limitados os desejos,
e ato escravo do limite..."
Observou o relógio no pulso esquerdo e viu que já andava a quase uma hora sem direção e precisava retornar, a neblina fina mesmo não sendo chuva encharcara suas roupas ela tremia pois o frio havia tomado seu corpo e a noite surgiu sem pedir licença.
Hora de retornar e desfrutar do chuveiro quente, do abraço amigo e do aconchego do seu lar,fazer com que esse fim de tarde parecesse singular sem as marcas do frio que iludibriaram sua mente e fizera respirar seu coração.
É preciso voltar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário